domingo, 2 de março de 2014

Os demônios são libertados durante a noite

Abri meus olhos, dei um sorriso lembrando do que pensei antes de dormir. Era noite de céu estrelado, notei como as estrelas brilhavam a partir da janela do meu quarto, elas ficariam perfeitas como pequenos diamantes pregados em um vestido azul marinho com decote V. Seria o meu vestido-noite, desses de colocar em um quadro só pra ficar admirando quando em um futuro não tão distante as estrelas não puderem mais ser vistas. Então, dormi. Alguém havia gritado do meu lado. Pisquei. Alguém interrompeu meu sonho super esquisito, me virei, ainda deitada, pra ver se a minha mãe precisava de alguma coisa, alguma massagem na perna, algum chocolate por causa da diabetes...?  

- Acorda, acorda, mamãe. Você tá sonhando. - Ela pulou quando eu toquei o braço dela. - Onde tá doendo? Na perna? - Ela não conseguia responder, estava congelada, nem gritar direito ela conseguia. Talvez seja a diabetes que abaixou, ou aumentou, porque ela começou a levantar da cama, com dificuldades, como se quisesse fazer alguma coisa. - Você quer água? Vou buscar pra você. - Ela fez não com a cabeça, um não mal feito, mas que eu entendi. - O que foi? O que você tá sentindo? - Ela não conseguia responder.

Quando ela finalmente conseguiu sentar na cama, sua perna estava reta, então eu me preparei para fazer uma massagem, mas ela continuou fazendo não com a cabeça, eu estava confusa, ela falou de uma vez, gaguejando, ainda com uma expressão de susto no rosto - Cha-chama a-a p-polí-ci-cia - e apontou seu dedo indicador para a janela, me perguntei o que aquilo significava. O que tem a janela?

Mil coisas passaram na minha cabeça. Um incêndio estava prestes a devorar nossa casa? Não, se não eu teria sentido cheiro de fumaça e visto as chamas. Alguém tinha amarrado uma corda no pescoço e se suicidado bem na frente da minha janela? Por que a minha mãe apontou para a janela tremendo daquele jeito e dito para chamar a polícia? Tinha alguma pessoa do lado de fora com uma faca pronto para mirar na cabeça de alguém? 

Quando olhei para a janela, a tela verde que protegia a entrada de insetos e pernilongos tinha um buraco. "Aquilo não estava assim quando eu fui dormir. Mas que diabos é isso? O que aconteceu aqui?" pensei. Então, ainda sentada, cutuquei a minha irmã que estava dormindo ao meu lado. "Amani, vai chamar papai. Corre.", não vi ela saindo do quarto, mas eu tinha certeza que ela havia obedecido. Não desgrudei os olhos da janela. Mas que porcaria é essa? 

Meus arrepios começaram a ficar arrepiados, a minha cama é em frente a janela e eu durmo de ponta-cabeça,  isso só tinha uma explicação. Alguém estava ali. Alguém estava a poucos metros de mim. Alguém queria fazer alguma coisa comigo? Eu olhei em volta da janela, não tinha nada que poderia ser roubado, nem mesmo a cortina, porque ela estava amarrada, fora de alcance. Quem fez aquele buraco na janela tinha o que em mente? 

Meus pensamentos foram interrompidos. Uma cabeça negra, careca, quadrada e com barba mal feita se levantou como um bicho. Aquela pessoa era uma bicho. Ele olhou pra minha mãe, depois pra mim. Gritei. Gritei como nunca havia gritado antes. Gritei de pavor. Gritei de susto. Gritei de medo. "Quem é você?" pensei, não conseguindo dizer nada. "O que ele estava fazendo na minha janela? Por que ele fez um buraco na minha tela verde?", eu estava imóvel, não conseguia tirar os olhos de lá fora. 

Ele correu. "Corra seu desgraçado, corra", falei pra mim mesma. Cada átomo do meu corpo estava assustado. Grudei minha cabeça na janela, ele tinha cerca de 1,53m e era muito magro, estava calçando um par de chinelos pretos havaianas falsificado, uma bermuda cinza escuro desgastada com bolsos e comprimento abaixo do joelho e uma camiseta com mangas curtas laranja. Com a cabeça na janela gritei pedindo socorro, minha mãe se juntou a mim e começou a gritar pela polícia, nós duas gritamos como se o grito fosse uma corda que apareceria na frente dele e o fizesse tropeçar, como se o grito fosse impedir que ele escapasse. Gritamos desejando que ele morresse bem ali, na nossa frente. 

Meu pai chegou, eu comecei a tremer, a chorar, olhando em todas as direções mas sem conseguir captar uma imagem se quer - Papai, tinha alguém aqui - apontei o dedo para a janela - Ele correu. Chama a polícia! Amani! - Pedi, implorei, mas ela estava congelada também, nós não somos tão corajosas, isso deve ser de família. Tanto faz. Corri para o telefone. Alguém tirou a porcaria do telefone com fio do quarto e colocou na sala. "Mas que droga", pensei. E com as pernas bambas, corri para a sala e peguei o telefone sem fio, liguei 199 e voltei pro quarto. O telefone não tocava. - Qual é o número da polícia?! - Perguntei pro meu pai. - 190, mas não adianta filha, ele já correu. - Liguei mesmo assim e ainda estava sem linha.

Peguei o outro telefone e disquei 190, a linha começou a chamar, graças a Deus, depois de uns 4 toque, uma voz gorda e sonolenta atendeu, expliquei o ocorrido, dei o endereço, expliquei a direção que bandido foi e ele disse que quando tiver uma viatura disponível, ele vai mandar os polícias pra essa região. Eram 3 horas da madrugada, eu não consegui dormir. Meu pai fechou a janela e foi do lado de fora pra ver se tinha como abrir, e não tinha, mas mesmo assim eu ainda tinha medo, a cada 5 minutos meu corpo todo se arrepiava, até a cabeça, achei isso super estranho e engraçado ao mesmo tempo. Algum de vocês já sentiu arrepios na cabeça?

As 7 horas da manhã consegui dormir um pouco, mas acordei logo porque meus pais já estava acordados. Conversei com a minha mãe sobre o ocorrido, perguntando se ela tinha sonhado ou visto alguém. - Tinha uma pessoa na janela olhando pro quarto. Ele tava parado, apenas olhando, eu não sabia se estava acordada ou se estava sonhando, então eu cai em mim e percebi que estava acordada, arregalei meus olhos e ele ainda estava lá, observando, até que ele se mexeu, provavelmente tentando aumentar o buraco da tela verde com um cigarro, foi aí que comecei a gritar. Aquilo não era um sonho, era real. Tinha uma pessoa olhando pro quarto enquanto a gente dormia. 

Antes de ser acordada pelos gritos da minha mãe, eu estava sonhando, como disse no primeiro paragrafo, um sonho esquisito. Eu estava fazendo compras no mercado, com uma cesta azul nas mãos e... nua. Sem roupas, sem calcinha ou sutiã e eu não havia notado isso. Então, quando minha mãe me contou o que ela viu, percebi que o sonho representava aquele momento de madrugada. Eu estava me sentindo exposta e de alguma maneira, eu estava exposta, tinha um estranho na janela do meu quarto me observando dormir e eu não sabia. Droga.

Só sei que a partir deste dia, o meu medo pela noite só aumentou, nunca mais poderei dormir com a janela aberta, nunca mais terei coragem de apenas olhar pro céu e admirar as estrelas, coisa que eu fazia desde sempre. Minha paz foi tirada de mim, ninguém sabe o que aquele ser vivo estava pensando enquanto olhava pela janela do meu quarto e o pior é que isso pode acontecer de novo, de novo e de novo, talvez das próximas vezes minha mãe não esteja acordada. E aí? O que aconteceria? 

E quando você acha que não pode piorar, vê que quebrou duas unhas desde que isso aconteceu.  

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Minha cor preferida

Foto do entardecer visto a alguns metros de casa. Tirei essa foto quando sai com as minhas amigas,
Dani e Taieny para fotografar no pôr-do-sol. Não deu muito certo. Dia 18/10/2013.
Era pra eu ter mais uma irmã, mais nova do que Amani e mais velha do que Hamdy, mas ela morreu na barriga da minha mãe. Minha mãe contou que ela estava passando mal, e quando foi no médico, ele disse que não sabe como ela tá viva, pois o bebê havia morrido no útero dela fazia dias, o feto já estava podre. Ela contou pras visitas lá em Palestina que a enfermeira a fez ficar de pé, empurrou a cabeça dela pra frente e ai, o bebê saiu. Simples assim. Quando ouvi isso, eu tinha dezesseis anos, era esse ano e eu fiquei em choque. Quando a minha mãe perdeu o bebê eu tinha uns oito anos e só fui saber dessa história agora, muitos anos depois.

Lembro-me que fiquei muito triste quando descobri que não teria mais uma irmãzinha, eu queria poder chama-la de Isabela, mas não poderia mais. Uma vez, eu estava no andar de cima, dias depois do enterro, com os cotovelos encostados na janela do quarto da minha mãe, apoiando a cabeça com as mãos e olhando para o céu, quando ela apareceu.

- Olha como o céu tá bonito, mamãe - Eu disse - a minha cor preferida é o azul.

- A minha também é, eu adoro o azul - Mamãe respondeu.

- Sabe porquê? Porque azul é a cor do céu, e é no céu que a Isabela está. - Eu disse

Realmente, eu adoro a cor azul, e isso é um segredo, pois desde pré-adolescente eu decidi que minha cor preferida seria o rosa. Não porque eu realmente gostava de rosa, apesar de gostar e achar a cor mais fofa que uma menina poderia gostar, mas porque o rosa é a marca principal de uma patricinha popular da escola. É isso que eu queria ser, e acho que consegui. 

Quando eu tinha quatorze anos, uma menina do 3º ano do colegial me disse no twitter que eu mereço apanhar muito pra ver que a vida não é um conto de fadas. No dia seguinte, uma guria da minha sala e eu brigamos, antes da primeira aula. Minha boca e meu nariz sangraram, e na hora do intervalo, eu vi a garota-do-twitter agradecendo em voz alta à menina que havia me batido mais cedo, tudo para me mostrar que a vida não é cor-de-rosa. Realmente, a vida não é um conto-de-fadas, mas se fosse, eu gostaria que elas fossem as bruxas más que sempre se dão super mal no final, só para poder rir delas que nem elas riram de mim.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Apresentação

Tirei essa foto com a minha webcam hoje para o primeiro post do blog.
Quando eu cheguei em Aparecida do Taboado, à uns 4 ou 5 anos atrás, fiz um super sucesso na escola junto com a minha irmã por sermos descendentes de árabes. Todos queriam saber sobre nós, e na minha sala de aula, eu sempre tinha histórias para contar sobre qualquer coisa que fosse falado nas matérias. Eram tantas histórias que a pré-adolescente de doze ou treze anos tinha pra contar... E toda vez que ela abria a boca e dizia "Teve uma vez que..." os colegas de sala começavam com a bagunça. Uns faziam barulhos de tambores, outros eram os câmeras, os reportes e alguns cantavam "Mais um capitulo das históóórias de Laiali". E ai eu falava. Não me lembro se era exatamente dessa maneira, mas era tão legal quanto tudo isso. Era ter toda a atenção voltada para mim sem nenhum esforço.

Ninguém acreditava quando eu dizia a minha idade, sempre pensavam que eu era mais velha, talvez porque eu usava muita maquiagem querendo ser a patricinha-sempre-maquiada-e-de-regime, e isso envelhecia a pele, e pelas as minhas histórias. Uma vez perguntei pra minha mãe "tem certeza que eu nasci em 1996? Por que eu tenho tanta coisa pra contar que as vezes penso que nasci faz mais de 100 anos", ela sempre ria e dizia que sim, ela tinha certeza. Eu nunca acreditei, ainda não acredito. Na minha opinião, eu tenho 117 anos, mas ninguém sabe disso.

Esse blog é como um diário. Escreverei aqui tudo que tenho preguiça de escrever no meu fichário da Capricho cheio de anotações e colagens que considero importante sobre a minha vida. Ele é trancado com um cadeado pequeno, mas futuramente, quero comprar um cadeado maior para aumentar aquele ar de fichário-super-secreto-não-se-atreva-a-toca-lo. E tudo que eu não postaria no meu blog sobre moda, dicas e etc que leva o meu nome.